Um Homem-Aranha andando na rua

Discretos, mas, ainda sim, imponentes, dois heróis caminhavam por uma rua próxima a um ginásio poliesportivo. Sem causar alarde, munidos de um uniforme vermelho e azul que cobria todo o corpo, perambulavam de mãos dadas como se fossem pai e filho. Talvez fossem, como a imagem sugeria.

O tal uniforme vermelho e azul não deixava dúvidas de que se tratava de Peter Parker, o ilustre e jovem morador de Nova Iorque. Mas o que faria Homem-Aranha em uma cidade interiorana e deveras pequena como a nossa? E quem seria o menino que o acompanhava? Ao que me consta, Parker não tem filhos.

Estaria o herói resolvendo - ou escondendo - algum caso extraconjugal? Fazendo valer, em tese, o seu direito à guarda compartilhada? 

O destino que eles imprimiam aos seu passos era incerto. Ao menos para mim, é claro. Para eles, certamente a rota já estava previamente traçada. 

Evitar um roubo, premeditar um crime ou salvar alguma pessoa em perigo? Não fui capaz de identificar o real motivo que os fizera usar um vestuário tão próprio e característico de um aracnídeo humanoide.

(...)

Eu, que já vi uma fada andando de ônibus, me surpreenderia novamente com um herói destemido morando no mesmo bairro que eu. Dois, na verdade. Um adulto e uma criança.

(...)

Hey! Estaria o adulto-herói ensinando o menino-aranha a utilizar os lançadores mecânicos de teia e a aguçar o seu instinto de inseto rastejante? Estaria o menino-aranha fazendo uma vistoria nos postes e casas que poderiam ser uma espécie de refúgio a ele numa desventura qualquer?

Pois me vem a cabeça uma informação importante: minha primeira visão dos heróis se dá próximo a uma piscina pública. Perto também de um campo de futebol que abrigava uma missa campal em comemoração ao aniversário de 45 anos do bairro.

Estariam os Homens-Aranhas treinando para uma relevante partida de futebol? Ganhando fôlego para cumprir uma prova de triatlo na tão humilde piscina da quebrada? Ou estariam participando da tal missa comemorativa?

Outro detalhe também é fundamental nessa investigação: nossa cidade, mais especificamente o tal bairro onde eles se encontravam, é fruto de uma disputa mundial por ser uma área abundante em terras raras, um misto de minérios essenciais para a fabricação de chips, processadores e demais itens eletrônicos.

Conta-nos a história original que um dos inimigos do Homem-Aranha utilizava tentáculos mecânicos que exigiam, entre outras coisas, imãs extremamente potentes - o que fortalece a hipótese de que o herói estava aqui com interesses geológicos, certo? De fato, eu não sei. 

Estaria, talvez, interessado em aprimorar os seus poderes - ou enfraquecer os de seus adversários? Trabalhando para potências estrangeiras famintas pelos ricos pedregulhos de nossa terra? Não há como saber.

Mas e o menino? Seria cúmplice? Seria mesmo um filho? Ou um herói em fase de crescimento? 

A resposta chegou logo depois. Ao virar a esquina, homem e menino entraram em um hortifruti. Quantas hipóteses furadas eu levantei. Homem-Aranha só queria fazer uma saladinha de alface!


20 set./26