Shibboleth: o tribunal das palavras
É fácil nos lembrarmos de momentos em que alguma palavra jogou sobre nós uma armadilha. Momentos em que, sem cerimônia, nos vimos estabacados no chão depois de pisar em uma casca de banana gramatical ou fonética. Pode ter sido numa apresentação da escola, no ambiente de trabalho ou mesmo numa conversa de bar. Pode ter acontecido com a gente ou com um empresário, com um vendedor de colchões ou com um âncora de telejornal. Deslizes verbais são comuns, eu sei, mas doem tanto quanto uma palavra grafada incorretamente num livro acadêmico.
A língua portuguesa, você sabe, sempre trabalhou com uma infinidade de termos, significados e tipos de usos - características tais que a distingue dos principais idiomas do mundo, estes, mais simples e sem tantas acepções.
Mais do que um repositório de palavras, o português-brasileiro é um baú de inovações, pois não se prende integralmente à regras arcaicas e modelos preestabelecidos e vai se modificando de tempos em tempos. Essa peculiaridade torna o nosso idioma natal uma criança em constante fase de crescimento. Birrenta às vezes, mas ciente de suas condições e necessidades.
Nossa língua é nossa bandeira - ou devia ser! Afinal, é com ela que pedimos, reclamamos, apresentamos e reivindicamos nossos sentimentos. Onde moro, sempre que preciso ter algum tipo de contato com alguém nascido em outro país - especialmente os de língua inglesa -, noto um certo estranhamento em mim, um desconforto pátrio que me incomoda e muito. Quase que como uma vergonha, sabe? Uma sensação apátrida de culpa por não poder me comunicar com o meu interlocutor como gostaria.
(Mas hey! O estrangeiro é que devia se sentir assim! Meu país, minhas regras, não?)
Não sei, sinceramente não sei. Gosto de falar português, gosto das influências indígenas que temos incrustados nele, gosto de inferências do latim, do grego e só não gosto do uso exacerbado de estrangeirismos para definir objetos (como assim não chamamos o abajour de "candeeiro", "luz de mesa" ou de "guarda-luz"?)
Tá legal, sem puritanismos. A própria língua portuguesa reprime essa barreira, pois aceita em suas mais íntimas estruturas esse colóquio de ideias e impactos culturais, e permite que ela própria tenha suas contradições de origem.
(Mas que seria legal entrar numa padaria e pedir uma "meia-lua" e não um "croissant", ah, seria!)
(...)
A historiografia brasileira nos relata que, no fim do século XIX, uma guerra civil colocou em confronto dois grupos rivais do sul do país: de um lado, os chimangos, representados por lenços vermelhos; e de outro, os maragatos, conhecidos por lenços brancos. O primeiro exército, entre outras pautas, lutava pela manutenção do governo, pelo fortalecimento da figura do governador e por um alinhamento integral ao presidente da época. O outro agrupamento, pelo óbvio, era contrário a essas manifestações, apresentando amplo antagonismo à autoridade exagerada da República e à hegemonia de um partido específico em âmbito estadual.
O mais interessante desse conflito, no entanto, nem eram esses embates políticos: eram as conhecidas "gravatas coloradas", uma maneira um tanto quanto econômica - e cruel - que combatentes encontraram para eliminar seus adversários. Como não tinham muitas armas à disposição (e como era caro manter uma guerra em curso por muito tempo) impôs-se ao conflito a degola como principal método de aniquilamento.
Os vizinhos uruguaios - boa parte deles com trânsito livre no Rio Grande do Sul - ao atuarem para defender maragatos ou chimangos (como mercenários ou voluntários), infiltravam-se nos acampamentos e quase sempre eram confundidos como brasileiros de fato. Por um detalhe: por viverem na região de fronteira, eles não tinham sotaque. Melhor: quase não tinham sotaque.
Para classificá-los como amigos ou inimigos, um teste era realizado. Sabendo que a vogal "O", no espanhol, tinha apenas o timbre fechado (Ô), combatentes pediam que os invasores pronunciassem a seguinte frase: "Cair no poço não posso".
Mesmo um espanhol fluente em português travaria nessa troca rápida entre duas vogais contrastantes no som, tornando o teste fonético infalível para os executores. Resultado: falantes nativos do espanhol, os penetras da guerra, eram sumariamente identificados e condenados à degola.
- Zás!
(...)
Hoje, como se sabe, a sentença de um erro deixou de ser literal: perdemos a pose, mas não mais o pescoço. Ufa!
19 ago./26