Psiu: tic-tac
Basta que algum ser humano acione um aspirador de pó para que uma atmosfera sonora mude a paisagem em que o tão celebrado eletrodoméstico se faz presente. Para que não paire sobre ele uma injustiça, tal incômodo auditivo também pode ser atribuído a sopradores de folhas, às antigas máquinas de lavar roupas, foguetes pirotécnicos e similares.
Aquela nuvem de notas desafiadas e acordes indecifráveis faz do dia uma noite horripilante. Não se ouve o canto dos pássaros, o âncora dando as notícias na TV e nem o chamado do leiturista que mensalmente visita as nossas casas à procura de números e dados.
O relógio suspenso parece não acreditar, mas a verdade é que até ele e os seus ponteiros clamam por um certo silêncio para serem ouvidos. Tic-tac não é apenas uma onomatopeia simples, mas, sim, uma marcação sublime da passagem do tempo.
Ora, se há muito barulho, o tempo desacelera, o dia demora a passar.
Ouvir o relógio também me parece uma atividade um tanto quanto poética. Seria como ver o vento ou enxergar as flores de olhos fechados. Quando estamos emudecidos - ou sob as condições comuns de uma tarde sem aspirador de pó - escutamos o silêncio em alto e bom som. Dali saltam ideias, continuidades, pensamentos de reconciliação e minutos mágicos que invertem a lógica da vida digital que derrama sobre nós um oceano de decibéis.
(...)
Tenho comigo que um carro de som livre pelas ruas é como um leão solto em um bairro pacato. A invasão do automóvel-falante nos tira abruptamente de qualquer estado de imersão em que possamos estar e isso me fere constantemente na cidade onde moro. Deveriam ser proibidos - assim como é proibido soltar um leão pelas ruas!
Tá legal, sem exageros. Nem sempre os barulhos mais estrondosos são aqueles que mais nos incomodam. Às vezes, o que nos tira mesmo do eixo é aquela porta que range quando a abrimos logo no início da manhã; o ruído de uma caixa de mensagens metálica colocada em um portão vizinho sempre que o vento bate por sobre a sua tampa.
(Ou é a gente cada vez mais impaciente, insensível e rabugento - hipótese mais provável em tempos hipersensíveis e melancólicos).
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Ferreira Gullar escreveu um livro chamado "Barulhos", mas dizia odiar quando alguém falava alto perto dele, pois, em sua avaliação, era barulho com cara, boca, bigode e barba. Não entendia como era possível gostar das músicas de elevador e das rádios de supermercados, muito menos do caminhão que compactava livro debaixo de sua janela tarde da noite.
Mas é que os sons, quase sempre, são ferozes invasores! Dou razão ao Gullar. Pois não se ignora o som de uma campainha (ainda que o dono da casa não atenda a solicitação de quem se depara de frente ao portão) e nem a mensagem de um varejista no centro da cidade (mesmo que tentemos abstrair o nosso pensamento cantarolando o hit das nossas vidas).
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Pensei, por muitos meses, em convocar uma passeata contra o barulho. Criei até o que seria o livro de regras: nada de gritos efusivos, cânticos de guerra, panelas se debatendo com escumadeiras de aço, passos acelerados ou carros de som.
Ficaríamos em silêncio, caminhando contra o vento, defendendo dentro de nós a ausência de som. Por tempo indeterminado. Ouviríamos nossos pés tocando o asfalto e o farfalhar de nossas respirações. Apenas isso.
Defender o silêncio, para nós, seria deixá-lo trabalhar sozinho.
Nossa única palavra de ordem seria curiosamente a mais silenciosa de todas: psiu! - também uma onomatopeia, tal como o tic-tac.
Abaixar a voz para convencer aqueles que não nos ouviam seria o maior dos nossos paradoxos.
Fazer silêncio para se ouvir; ouvir-se para fazer silêncio.
