Sol e si
Assim era o cenário: sol quente, sombra fria, uma praça repleta de pessoas e uma gigante estância de águas termais. Cidade movimentada, tendas distribuídas ao longo de um espaço com venda de utilidades domésticas, obras artísticas locais e artesanatos. No centro do palco, um leão de mármore jorrando água pela boca - o protagonista que, carinhosamente, é lembrado pelo diminutivo. Um filhote de leão - raio da manhã. Gosto muito de vê-lo ali.
Enquanto os músicos afinavam os instrumentos, ele permanecia imóvel. Talvez acostumado a ouvir concertos. Talvez indiferente a todos eles.
O verdadeiro lar de um leão, aliás, é a selva. E o de um músico, é claro, é o palco: o que montam para ele e o que, necessariamente, ele precisa criar para si. Leões e músicos são feras! Precisam rugir e ruir, caçar e cantar, correr e morrer pelo que buscam incansavelmente.
Devaneios, eu sei.
Ao lado do nada amedrontador felino, instrumentos musicais variados e toda uma parafernalha necessária para a realização de um show. Um baterista, um baixista, um tecladista, um violonista e o vocalista, também guitarrista, encerra essa lista - pra continuar rimando, já que falamos de ritmo, sons e música.
Assim que chego, ouço-os tocarem uma canção que evoca o sol - mais precisamente o segundo - já que o primeiro já dava as caras logo cedo. "Passagem de som", eles alertaram; numa assumida poesia metafórica e sublime das notas musicais viajando feito ondas de rádio ou de calor, rompendo obstáculos invisíveis e passando, como quem passa despercebido e marcante, se assim a contradição dos termos nos permitir dizer.
Vento solar, estrelas-do-mar: houve também a "passagem de sol", uma artimanha adotada por alguns presentes que, incomodados com a intensidade do calor, mudavam de lado para que parte do show fosse assistido à frio, na sombra, e outra parte assistida à quente, com os olhos entrecortados pela luz que iluminava sem cegar.
O repertório da banda que ali se apresentava trabalhava bem essa dualidade: canções acaloradas, que dialogavam com a ideia de arrependimento, mas que, ao mesmo tempo, traçava rumos, laçava rimas, lançava rotas; e canções frias, que falavam do eu-vocalista e das dores que doem mesmo depois de serem esquecidas - cicatrizes, ao fim de tudo. O que não queremos mais para nós.
Tá legal, faz tudo parte dele mesmo, a estrela maior de nossas vidas (e eu não estou falando do sol). Falo dele, o monstro que evoca lembranças e destrói certezas, o carinhoso e amável animal que nos deixa fazer carinho em sua cabeça enquanto nos envolve feito canto de sereia: o tempo, esse ser que já foi, é e sempre será ele.
No tremular de suas bandeiras, aliás, uma coisa é fato: presente, passado e futuro são crianças brigando por um doce. Uma briga pela qual nada podemos fazer - apenas assistir e mediar.
Bom mesmo é quando assumimos o descontrole das coisas, extinguindo normoses e bailando, como numa balada, a canção que sempre nos move: a busca por nós, a procura por quem nós somos. O encanto de quem busca si mesmo, sem ré, na espera do astro-rei - o primeiro, o segundo, o terceiro - para que o acorde maior possa ser ouvido e tocado.
Sol e si, coincidências à parte, são vizinhos musicais. São separados pelo "lá" (que na relatividade do tempo também pode ser o "aqui").
(...)
Enquanto o último acorde ainda demorava a desaparecer, olhei novamente para o pequeno leão da fonte antes de ir embora. E não é que o nobre felino continuava imóvel...
Leões e músicos compartilham mesmo uma estranha vocação: uns rugem para afirmar a própria existência; outros fazem isso, mas chamam de música.
Devaneios, eu sei.
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| Cartaz original da divulgação do show. A data era outra, o local também. Mas a chuva mudou os planos. (ainda bem!) |
