Carta 033 - Apenas um jogo
Querido Joaquim,
A Seleção Brasileira de Futebol, você sabe, foi eliminada da Copa do Mundo, depois de uma partida ruim e de uma atuação sem brilho dos nossos jogadores. Na sua primeira grande competição com a gente, perdemos para a Noruega, um país sem muita tradição no esporte, mas que foi atrás das oportunidades que criou durante o jogo e não desperdiçou nenhuma chance.
Falando nesse assunto, percebo que é disso mesmo que o futebol é feito: de chances bem aproveitadas. Gols, pra ser mais prático e direto. O jogo de ontem, Joaquim, é só mais um entre tantos dessa Copa (por mais que muitas pessoas digam o contrário). Para nós, é claro, fica um gostinho amargo na boca porque queríamos ter ido além. Mas é apenas um jogo.
Essa cartinha, aliás, tem um objetivo central: mostrar, de maneira simples, o quanto é importante aceitarmos as derrotas. O nosso país, afeito ao futebol vitorioso de outrora, nunca esteve muito preparado para os revezes, para as decepções e para as quedas. Mas é importante, Joaquim, não crescer com essa mentalidade que povoa o nosso imaginário, para que saibamos sempre que podemos vencer ou ser vencido.
Numa partida de futebol, é possível perder ganhando e ganhar perdendo, sabia? É possível perder e perder feio! Assim como é possível vencer com facilidade qualquer adversário do planeta. Basta que um jogador esteja mais preparado do que outro, que uma Seleção tenha um craque de outro mundo em atividade, que alguns bons jogadores estejam no melhor momento de suas vidas. Basta que uma série de outras aleatoriedades surjam como surpresa!
Também é disso que o futebol é feito: de aleatoriedades.
Nossa Seleção não está com essa bola toda há tempos! E tá tudo bem! No dia seguinte à derrota, a vida continua para todos. Para os jogadores, para os torcedores, para os que amam o futebol ou para os que amam basquete.
"De médico e técnico da Seleção Brasileira todo mundo tem um pouco", eu sei. Mas a reflexão crítica, os comentários ácidos, a gente deixa para os profissionais, para os comentaristas especializados, para a comissão técnica que acompanhou o time. Como torcedores, resta-nos a lamentação, as brincadeiras entre amigos - e, minutos depois, a aceitação, a realidade de que aquilo é... apenas um jogo.
Tão bom quanto perdemos valorizando o empenho do nosso vencedor, né? É um presente! Cultive isso dentro de você para crescer sem precisar diminuir ninguém.
Um autor que seu tio tanto gosta, o Darcy Ribeiro, nos ensina com ainda mais profundidade tudo o que tentei dizer nessa cartinha. Ao receber um importante prêmio, lembrou que havia fracassado em inúmeras tentativas de mudança e transformação em sua atuação política. Mas finalizou que os fracassos eram as suas vitórias.
E "que detestaria estar no lugar de quem o venceu".
Tio/Padrinho Matheus.
