Dor de lado
"Dor de lado" é o nome mais interessante que já ouvi sobre um incômodo que pode nos acometer. Gosto dessa definição pela falta de direção que o próprio nome - vago e sem rumo - pode sugerir. Me faz lembrar sempre da história da criança que, ao responder uma pergunta sobre a sua parte favorita da escola, teria respondido que era a "parte de fora". Ou, então, da história do viajante que, também ao ser perguntado sobre de que lado do avião gostaria de viajar, respondeu que seria melhor que fosse "do lado de dentro".
As duas histórias parecem brincadeiras com a linguagem, mas talvez revelem algo mais profundo: a nossa dificuldade em localizar exatamente o lugar de onde falamos. Essa dificuldade em saber de que lado estamos - ou, ainda, para qual lado devemos ir - é, de fato, uma encruzilhada. Na realidade e nas anedotas cotidianas. Desde sempre. Uma encruzilhada através da qual sempre é possível se perder - ou se achar, caso o objetivo seja o de ser um cavaleiro errante, tal qual Dom Quixote, um homem elegante com a sua inseparável dor.
Porque talvez toda caminhada importante talvez comece assim: sem mapas e com uma interrogação maior do que um ponto final.
Já que entramos nessa aventuresca trilha da literatura, é bom que nos lembremos também do coelho branco de Lewis Carroll, que nos alerta que algumas estradas não possuem mesmo rotas definidas - e que tudo vai depender de onde queremos estar no futuro (ou nos próximos dez minutos, que é uma outra forma de futuro ainda mais amedrontadora e instigante).
Curiosamente, tanto Dom Quixote quanto Alice seguem caminhos que fazem pouco sentido para quem observa de fora. Faz sentido. Certas direções, aprendi com eles, só podem ser compreendidas depois de percorridas. E por nós mesmos.
O certo é que uma "dor de lado" pode ser tantas... uma dor física, por exemplo, que alcança a nossa pele, algum órgão, os ossos; uma dor simbólica que interfere em outras partes do corpo, da cabeça, dos pés; uma dor do lado de dentro, como uma paixão não correspondida, uma desilusão; talvez até uma dor que afete outra pessoa, mas que resvala em nós em alguma medida como uma bala ricocheteada e sem direção. Perdida. Sem rumo.
Talvez a única característica comum entre todas elas seja justamente esta: interromper um movimento automático. Fazer com que deixemos de caminhar por instinto para, ainda que por alguns instantes, perguntar para onde estamos indo.
(...)
Todo esse papo sobre os lados, devo confessar, teria permanecido apenas como um exercício de linguagem se, semanas atrás, meu corpo não tivesse decidido participar da conversa.
Mais do que uma dor linguística, eu realmente senti algo ao lado do abdômen na última corrida que participei. Mas segui com ela durante boa parte do percurso, como quem foge de um problema em companhia dele próprio.
A medicina, aliás, diz que a dor de lado é, em linhas gerais, um desacordo entre a respiração e o movimento do nosso corpo. Uma fisgada discreta que nos atesta que seguir em frente nunca foi apenas um trabalho das pernas.
Na minha experiência particular, eu sabia exatamente o lado onde a dor doía: o esquerdo, como em tantas outras vezes, no mesmíssimo lugar, com a mesma intensidade.
(...)
Durante alguns quilômetros, corremos pela direita da avenida. Na volta, o trajeto nos lançou para a esquerda. Ambos, entretanto, nos levavam exatamente ao mesmo lugar: o ponto de partida, como num looping simbólico que me ensinou que, às vezes, a direção é só uma questão de gosto ou de necessidade - e que, dependendo do objetivo, há vários caminhos para o mesmo fim. Foi impossível não pensar que a vida inteira talvez seja feita dessas pequenas inversões de pista.
No trânsito, não se trata apenas de uma questão de gosto, eu sei. Na competição entre carros, motos e ônibus, não há nenhuma dose de poesia. À direita, me ensinou o instrutor da autoescola, veículos mais lentos e que não têm tanta pressa; à esquerda, automóveis e motocicletas com um certo grau de, digamos, celeridade.
Mas e no mundo político, essa mesma regra ainda faz sentido? Os que estão situados à esquerda realmente correm mais do que aqueles que, diametralmente opostos, fazem o caminho contrário? Ou estão todos em um mesmo caminho, com objetivos incomuns, preocupados com a velocidade da via e com a chegada?
Não sei, confesso. Só sei que, na política, a dor de lado costuma ser ainda mais aguda.
Sigo no acostamento, por enquanto, cuidando das minhas convicções para que elas não se transformem em contemplação e torcida. E a caravana segue.
(...)
Conheci a fotógrafa Stefania Brill numa exposição de minha cidade. Além de parte da obra, conheci por dentro (já que estamos falando de direções) a sua desobediência. Uma foto, em especial, chamou a minha atenção: um elevado com uma placa situada à margem de uma pista com os dizeres: "não passe pela direita".
Seria a tal placa uma indicação política que, na visão da fotógrafa, deveria nortear nossas decisões e escolhas nesse perigoso embate que, aqui em nosso país, se aproxima? Ou apenas um indicativo óbvio para que um carro não se estatelasse no chão?
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| São Paulo, 1974. Acervo (Instituto Moreira Salles) |
Tal como o coelho de Carrol, fui atrás do caminho do clique. E descobri que o tal elevado era a última grande obra de um prefeito de São Paulo, aliado de um dos períodos mais dolorosos da história do Brasil - qualquer que seja o lado pelo qual se decida observá-lo.
Aquela placa, de fato, não estava ali apenas para orientar o trânsito. Não passar pela direita, naquele momento, era um imperativo moral.
(...)
do lado esquerdo carrego meus mortos.
29 jun. 26

