Crônica de um dia comum

Acordo — depois de me espreguiçar, lavar o rosto e vestir um casaco. Preparo o meu café.

As primeiras horas do meu dia já estavam reservadas para, do ponto de vista brasileiro, um momento solene do ano: tomar a vacina da gripe.

Antes de me encaminhar ao posto de saúde, passeio com a minha cachorrinha Nina. Visto uma camiseta branca e outro casaco — agora vermelho, maior e mais quente. E sigo.

No caminho, esqueço-me de onde havia guardado a minha carteira de vacinação. Carteira que, aliás, tem a mesma idade que eu. Ali constam todas as vacinas que já tomei. Um retrato histórico de proteção e significado diante de momentos tão desafiadores da saúde do nosso país.

Volto. Recomeço o caminho. Certo de que agora tudo caminhará bem.

(...)

Ao chegar ao posto de saúde, vejo que minha senha está longe de ser anunciada. Ao aguardar esse também solene momento na vida de todo brasileiro, sou surpreendido por um trio de cachorros em uma acalorada discussão. Os três se olham, ostentam rosnados intimidadores e, segundos após tal exibição, passam por trás de onde eu estava sentado, derrubando uma cadeira com as senhas ainda disponíveis para o dia.

Em uma unidade de saúde, levamos um susto! (com o perdão do trocadilho soberano de se ter um sistema único de saúde universal e gratuito).

Enfermeiras e pacientes se uniram para restaurar a ordem — do espaço e das senhas, é claro.

Ouço de uma das profissionais que a disputa dos cães era, nitidamente, por território. Um deles, usufruindo do espaço há mais tempo, não permitia, em nenhuma hipótese, a invasão de qualquer outro cachorro no recinto. 

Usucãopião, diria o profissional do direito com tendências trocadilhescas.

(...)

Briga por territórios, você sabe, não é uma exclusividade do mundo animal. Basta ligar a TV (ou o celular, ou abrir o jornal, ou a revista, ou as redes sociais) para que acalorados embates saltem da tela (ou do papel)! Às vezes, basta abrir a janela de casa, não é mesmo?

Ao fazer o caminho de volta, já vacinado contra a mais popular infecção viral aguda, visualizo, próximo a uma papelaria, uma série de pessoas na calçada. Algumas em silêncio, outras em papos intensos e movimentados. 

(Seria a espera para o início de uma promoção imperdível de materiais escolares? Algum encontro combinado para a troca de figurinhas daquele famoso campeonato de seleções?)

Eis que me aproximo da multidão — sem muita curiosidade, afinal, era apenas o meu caminho de volta — e percebo que se trata de um velório. Um velório? Sim, um velório.

Ao lado da tal papelaria, havia um espaço dedicado à venda de seguros de vida, mas que, até então, eu não sabia que também era um local reservado a essa tradição milenar de consolo pós-morte. 

Em frente ao tal velório, uma escola.

Como o relógio apontava a metade do dia, alunos recém-saídos do período letivo misturavam-se ao amontoado de pessoas que se consolavam entre si. Ali havia um choque entre passado e presente, entre quem ia e quem ficava, entre aqueles que buscavam o futuro e os que já não o tinham mais. 

Instantes compartilhados, espaços idênticos, caminhos inversamente proporcionais.

(...)

E se, no meio dessa multidão, houvesse também aqueles à espera do tal saldão de itens escolares? E se, no meio dessa multidão, estivessem também meninos e meninas ávidos por adesivos futebolísticos?

Não sei. Eu estava de passagem. Não procurei entender.

Talvez porque o dia já estivesse ocupado demais tentando me mostrar outras coisas.

(...)

Começou com uma carteira de vacinação que guarda décadas de cuidado. Passou por cães defendendo territórios ocupados. Cruzou com uma despedida silenciosa diante de uma escola cheia de vozes e futuros. Tudo isso em poucas quadras, durante uma caminhada comum.

Há dias em que a cidade parece escrever seus próprios parágrafos, né? E nós, distraídos com o destino incerto do dia a dia, seguimos sem perceber que fazemos parte do texto. Ignorando o fato de que somos o texto muitas vezes.

Naquela manhã, saí de casa para tomar uma vacina contra a gripe. Voltei com a impressão de que entre disputas, encontros, despedidas e recomeços, talvez a vida inteira aconteça justamente nesse intervalo entre uma ida e uma volta.

pode entrar pela sua janela 
e sair pela porta sem nem te avisar
pode ficar ao seu lado sem você notar
pode vir da sua cabeça 
ou subir pela espinha pra te arrepiar
pode ser só uma ideia pra você pensar
pode ser fruta caída no pé 
ou palavra escondida num verso qualquer
e vai, vai mudar sua vida, vai."

(Ronald Valle)

01 jun./26