Claro e evidente

Uma das mais famosas personagens de Clarice Lispector revelava ter medo das palavras. Dizia, em tom sublime, que elas provocavam nela um misto de receio e expectativa. Que não dominá-las era como ser dominada por dentro, como um leão que ruge dentro da jaula, faminto e incompreendido.

Meio sem jeito, lia o mundo ao seu modo. Sem amarras, mas ligada profundamente à finitude de nada saber. Tinha medo das palavras talvez por entendê-las como enigmas a serem decifrados - sem que fossem dadas a ela, é importante dizer, nenhuma pista, nenhum caminho. Entender era apostar. E no escuro.

(...)

Talvez seja aconselhável mesmo ter medo das palavras. Melhor: talvez caiba a nós um certo respeito em relação a elas. Não porque sempre vociferem ameaças, intenções maliciosas - não só por isso. Simplesmente porque dentro delas há um universo inexplorado, uma caverna repleta de caminhos sem pegadas, uma montanha de aclives, terrenos acidentados e obscuridades reveladoras, se assim a contradição dos termos nos permitir dizer.

Por uma letrinha, o saber não é sabor. Por um consoante, a dor não é cor. Por uma única letra, não entendemos o tempo assim como ele é: um templo! Quantos sentidos não dependem apenas de um detalhe, não é mesmo?

(...)

Erasmo Carlos - alguém que, sem medo de errar, não tinha nenhum medo das palavras - chegou a definir o sol como "um diabo brincando de bonito". O que ele queria dizer com isso? Que a beleza não é ingênua? Que o sol ilumina, mas também queima? Que o diabo é bem-humorado? Desisto. Por isso é fácil entender a personagem de Clarice.

Na mesma música, o tremendão define o anjo como "um vampiro que, ao invés de sangue, sugava o amor através de um suspiro". 

(Hey! Anjos e vampiros são iguais? Os seres celestiais também dependem, assim como os sedentos por sangue, dos outros para viver?)

Tá legal, é de poesia que estamos falando, né? Essa coisa que não explica a realidade, mas a amplia.

E poetas costumam lidar melhor com as palavras do que os... insensíveis (demorei a achar um antônimo para poeta, já que estamos falando dos termos e suas indefinições).

(...)

Sei lá, talvez nem seja uma questão de habilidade. Talvez os poetas apenas aceitem aquilo que a maioria de nós tenta esconder: que as palavras não nasceram para obedecer a nada nem ninguém.

Palavras são pontes construídas sobre abismos. Não eliminam a distância entre as pessoas; apenas tornam a travessia possível.

Macabéa, a personagem de Clarice, talvez não tivesse exatamente medo das palavras, mas, sim, do mistério que elas carregavam. Porque se as palavras fossem perfeitamente domáveis, seriam apenas ferramentas.

Mas, sendo selvagens, tornam-se literatura.


"moça, pra você ficar feliz
ouça o que o mundo não lhe diz
quando a ilusão vira um anjo
parece que o preto e branco é uma cor
ervas daninhas florescem
enganado a imagem do jardim em flor
o anjo é um vampiro que ao invés de sangue
só quer no seu suspiro, sugar o seu amor.
moça, é assim que a vida leva
viver, ser feliz sem entender
quando o sol amanhece
surfando nas ondas do céu feito mar
desce na prancha de nuvem
e pousa na praia só pra te encontrar
o sol é um diabo brincando de bonito
só quer amar você
no fogo do infinito"


                                                                                                                           22 jun. 26