No caminho de volta
Muitos momentos dos quais participamos, especialmente no que diz respeito à infância, não se tem foto nem vídeo. Apenas lembranças de uma memória humana assumidamente falha - que insiste, aliás, em guardar o que sente mais do que o que vê.
Curioso. Talvez os momentos mais verdadeiros da nossa vida não tenham mesmo registro algum - a fotografia e o vídeo, aqui, são meros detalhes.
Tais momentos não cabem em moldura, não viram arquivo, nem aparecem na galeria imensa do celular que mais parece um abismo.
Há instantes que são feitos de cheiro, de textura e banhados em detalhes que só fazem sentido naquele instante — viver o agora que fala, né? Tempo rei, ó tempo rei.
A memória não é justa. Ela mesma escolhe o que fica, sem dar a menor bola para o que achamos (talvez seja essa sua principal virtude). Às vezes, esquece rostos inteiros, mas preserva com perfeição a integridade de um retalho, o gosto fugidio de uma comida ou a sensação inexplicável de um abraço.
Sabe como é, memórias não pedem licença: elas vêm de repente, sem avisar, no meio de uma manhã comum, como se abrisse uma pequena fresta no tempo deixando luz e ar entrarem sem demora e compromisso.
Certa beleza reside nesses momentos sem registros físicos, afinal, eles não foram feitos mesmo para serem exibidos publicamente. Não há prova, não há replay, não há como confirmar se foi exatamente daquele jeito. Como um torcedor no estádio que, desatento, perde o gol do seu time olhando para a tela do celular. Ou como quando um transeunte, solitário, decide olhar para o céu no instante em que um meteoro rasga a camada de uma noite que nos cobre.
Fica apenas a versão que carregamos - moldada pelo tempo, pelo afeto e pela transitoriedade.
Talvez seja melhor assim, né? Porque o que não foi capturado permanece inteiro de um jeito estranho, imperfeito, incompleto... vivo. Como se ainda estivesse acontecendo, toda vez que a gente fecha os olhos e lembra.
(...)
No último dia 04 de abril, fui correr com a minha amiga Isabela Gonzaga. Não nos víamos há bastante tempo e a atividade física era um pretexto interessantíssimo para colocarmos o papo em dia - e em movimento.
Sempre fui fã de Isabela. Pelo carinho que sempre teve comigo e, especialmente, por ela representar uma inspiração diária no diz que respeito à dedicação ao esporte e ao cuidado com o corpo.
Corremos alguns quilômetros (que honra!) - ela, gentilmente, colocando o pé no freio para que eu conseguisse acompanhá-la. Ao nosso lado, a sua fiel e linda companheira Dakota, uma Border Collie que também se divertiu um bocado no Parque Ecológico do nosso bairro.
Ao voltarmos, conversamos sobre os nossos trabalhos e hobbies. Falei do livro que estava lançando, ela dos desafios de morar longe do Brasil, entre tantos outros assuntos que surgiram em poucas horas de encontro.
Recebi dela dicas valiosíssimas sobre a corrida, sobre a preparação e aprofundamento em treinos, sobre autoestima, sobre fazer e se cobrar, sobre não fazer e não se cobrar...
No meio da tarde, uma notificação no famoso aplicativo de mensagens me lembrava que havíamos esquecido de tirar uma foto. Isabela iria embora, na semana seguinte, para a ilha de Malta, um território europeu repleto de árvores, penhascos e famoso pelas suas águas azuis-turquesa. Em resumo: não teríamos uma nova oportunidade para a foto.
No dia seguinte, uma notificação no famoso órgão do corpo humano, o cérebro, me deu uma ideia: que tal escrever um texto que possa, de algum modo, substituir a foto que não tiramos?
Aceitei o desafio, não sem antes consultar outro famoso órgão do corpo, o coração. E ele me confirmou que seria uma boa ideia, já que aquele momento também havia me trazido uma sensação de pertencimento sem igual.
(...)
Razão e emoção, cérebro e coração... corpo e mente, preenchimento e vazio: talvez seja disso que se alimenta uma lembrança, né?
Ah, será que nesse corpo imperfeito há um espacinho para a tecnologia? Melhor não, né?
![]() |
| Imagem gerada por IA |
.png)
