O tal do Amyr
Não tenho o costume de sonhar. Mas, antes que você me carimbe de insensível, eu explico: de olhos abertos, eu sonho um bocado — às vezes até demais. À noite, quando durmo, é que esse fenômeno não se realiza com tanta frequência. Independe de mim, sabe?
Já faz uns dias, mas ainda me lembro, com detalhes, do sonho que tive com um escritor que muito admiro: Amyr Klink — que também é navegador, palestrante e um entusiasta de grandes aventuras. O motivo? Não sei. Talvez a notícia de que o seu principal livro ganharia uma adaptação cinematográfica.
(Será que foi só isso?)
Talvez. Sonhos não têm mesmo uma explicação formal e assertiva — dessas a que a gente se agarra e não quer mais soltar.
A verdade é que eu ainda nem sou um leitor tão voraz assim das obras dele, embora elas estejam sempre na minha lista de leitura. Talvez, mais do que as histórias que li, o que tenha me marcado seja uma entrevista em que ele disse que não deixará um único centavo para as suas filhas. Ou então a entrevista de sua filha, Tamara, que contou ter comprado seu primeiro barco sozinha, sem a ajuda do pai.
Agora, sobre o livro que vai virar filme: dele me lembro muito bem. "Cem Dias entre Céu e Mar". Uma das histórias marítimas mais interessantes que já li. O relato de um navegador que cruzou o Oceano Atlântico num barco a remo, em meio a baleias, tubarões, tempestades fortíssimas e a uma solidão à altura de um sonho aparentemente inatingível.
Lembro-me de ler, quase sem parar, as páginas que iam surgindo: os capítulos, as histórias que se apresentavam, as dificuldades... ufa! Era como se eu estivesse saindo do Brasil, rompendo o tenebroso oceano e chegando até a África como ele.
(Como escreve bem o invasor do meu sonho).
Ah, sobre o sonho! Quase ia me esquecendo. Aí vai:
Na sala da minha casa, conversando com pessoas que não fui capaz de identificar, começo a interagir com o tal Amyr. No sonho, eu sei nitidamente quem é — e sei também a posição que ocupo até então: a de fã, a de um menino honrado em receber, em sua própria casa, um escritor tão conhecido.
Ele me pergunta o que eu achei dos seus livros. E eu respondo, é claro, que gosto de todos os que havia lido. Ele me pede, então, que eu traga os exemplares que eu tinha para que ele pudesse autografar. "Claro!", dizia eu, todo emocionado.
Ao chegar à minha humilde biblioteca, não encontrei nenhum título assinado por ele. Olhei embaixo de uma mesa, por sobre uma estante lateral, em cima do guarda-roupa, dentro de gavetas e bolsas e... nada. "Onde foram parar os livros do Amyr? Eu tinha pelo menos três!", pensei.
Antes que eu voltasse à sala, escuto um barulho que coloca de lado a minha palpitação literária. Tomo um susto. Um barulho que, fora do sonho, também era facilmente audível.
Acordo.
Tranquilo por não ter passado vergonha diante de Amir.
Triste por não ter ganhado dele um autógrafo.
23 mar./26
