E aí eu não sei se é a IA
A tecnologia nos oferece tantas facilidades que a gente, quase sempre, se esquece do que já era fácil antes dela. Sob sua égide, algumas tarefas parecem menos dificultosas e outras já nem mais queremos fazer sob o pretexto de que ela pode fazer por nós de modo mais eficaz - e mais rápido, o que é ainda mais interessante nessa dualidade homem-tecnologia.
É curioso perceber como, pouco a pouco, passamos a confundir conveniência com necessidade. O que antes era simples tornou-se, de repente, dispensável; e aquilo que era apenas um auxílio passou a ocupar o centro da mesa.
Tá legal, algumas coisas realmente fazem sentido delegar às máquinas - tarefas repetitivas, simples organizações, atalhos. Entretanto, mais do que ganhar tempo, às vezes a gente se entrega a essa missão sem questionar o que há por detrás dessa celeridade. Acelerando o carro há 200km/h numa via vazia, numa viela de bairro, numa vaga de estacionamento.
(Não preciso dizer o perigo contido nesses atos, né?)
Tenho tido dificuldade de me lembrar de filmes que assisti há um mês, de livros que li no ano passado e de momentos que juro terem acontecido ontem, mas que aconteceram em 2020.
Sei que a pandemia nos tirou a ideia cronológica do tempo, congelando algumas percepções que temos da passagem dos anos, por exemplo. Mas, vamos ser sinceros: essa fase atordoada ou já passou ou já está próxima de ter passado, né?
Nossa memória está mesmo precisando de ajuda. E aí eu não sei se é a IA, se é a nossa falta de foco cada vez mais galopante, se é a nossa pressa em fazer as coisas apenas por fazer, se é pelo fato de sermos bombardeados de informações o tempo de todo - e de tentar, em vão, fazer delas, conhecimento - ou se é qualquer outra consequência dessa contemporaneidade que não sabe pisar no freio.
(Sei lá, pode ser tudo isso junto, né?)
(...)
Decidi comprar, depois de receber uma indicação de uma pessoa que eu muito admiro, um caderninho desses de anotações para voltar a escrever à mão. Diz a ciência que essa simples atividade traz benefícios grandiosos para a mente. E quem somos nós para duvidar daquela que é a mãe da tecnologia, né?
Passei a escrever comentários de filmes, impressões que tenho de um capítulo de livro e experiências pequenas que tenho ao longo da semana - que nada refletem as guerras do mundo, os podres poderes, a evolução cibernética das coisas e tudo que faz a mola do mundo atirar-nos para cima como homens-bomba.
Ao depositar em uma folha em branco tudo aquilo que povoava a minha mente, vi que não teria um trabalho fácil. Decidi insistir na ideia - e prossegui. As frases vinham em pedaços, às vezes tímidas, às vezes dispersas, como se não estivessem acostumadas a caminhar sem a ajuda do teclado.
Na primeira página, acrescentei algumas observações de um filme que assisti, na esperança de conseguir sintetizar as emoções que presenciei em mim vendo a história. Foram comentários aleatórios, visões da atriz coadjuvante, semelhanças do ator principal com um ex-ministro da Justiça, o modo com o qual falavam de amor e afeto etc. Nada muito elaborado.
Tentei descrever o que aprendi com o filme também, muito embora o que nele é dito, é dito em silêncio, como um sussurro - e sussurros, você sabe, ainda não podem ser eternizados num papel.
(Ou podem?)
Voltar a escrever à mão me fez ter a certeza de que a tecnologia pode - e deve - me ajudar em muitas questões do dia. Mas essa, de consumir arte com propósito, eu quero que fique cada vez mais comigo. Como um amigo inseparável. Unha e carne.
Para que eu não me esqueça de lembrar daquilo que mais importa: a realidade; a recordação que faz sentido e a esperança de que ainda somos capazes de armazenar informações úteis e prazerosas no nosso fatigado hard disk - e de que ainda somos donos dele, apesar de não parecer.
Para que eu não me esqueça que a lentidão é um termo vago - um homem que dorme no ponto à espera do seu ônibus, mas que tem, nitidamente, um objetivo de vida.
Para que eu não me esqueça nunca que a pressa desmedida é como um policial que quer chegar à cena do crime antes do roubo. Mesmo que não haja cena. Nem crime. Nem roubo.
No fim das contas, lembrar talvez seja isso: aprender a andar um pouco mais devagar para que as coisas tenham tempo de ficar.
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| Menção honrosa à Karen Tâmilyn, que me fez ter um caderninho. |
02 mar./26
