Carnaval desorientado
Minha maior lembrança do carnaval tem a ver com um trauma: o dia em que me perdi dos meus pais em um banho à fantasia da minha cidade. Não fosse apenas o preocupante sumiço de uma criança de, aproximadamente, 7 anos, soma-se a isso os acontecimentos subsequentes desse dia sem brilho e nada festivo — um dia que, ironicamente, deveria ter sido pintado com as cores mais vibrantes do calendário popular, mas que ficou apagado e sem cor.
Era tarde de um domingo, talvez, e meus pais me levaram para um evento tradicional da cidade onde pessoas das mais diversas estirpes se reuniam para apresentar os figurinos que foram capazes de desenhar e construir. Do ponto de vista da comemoração, era um evento divertido para crianças e adultos, afinal, o importante ali era a distração. Havia algo de democrático naquele encontro: ali, o tímido podia ser rei, o anônimo virava personagem, o cotidiano dava lugar ao extraordinário — como se, por algumas horas, a cidade decidisse brincar de ser outra coisa.
Tinha de tudo: carros feitos de papelão, fantasias que lembravam personagens infantis, animais exóticos, penas e plumas que simbolizam outros seres da fauna brasileira — araras vermelhas, pavões imaginários, onças e zebras de cetim —, além de invenções que nenhum outro gênero conseguiria determinar de fato o que era. Ao final, um júri elegia a "fantasia mais criativa da cidade", título que valia mais pelo aplauso e pelo sarro que o vencedor podia tirar dos derrotados, do que por qualquer prêmio material, se me recordo bem.
No meio da festa, já quando os últimos participantes apresentavam seus mirabolantes protótipos carnavalescos, me dou por conta de que estou sem os meus pais. Olho para os lados, para cima, para trás, e só vejo quadris coloridos em movimento, pés chacoalhando o chão, vestidos espalhafatosos girando como redemoinhos de glitter e, à minha frente, um caminho repleto de inseguranças sobre o que eu podia fazer a partir daquela constatação de estar completamente perdido.
O mundo, que segundos antes era música, confete e animação, tornou-se um labirinto de pernas desconhecidas e sons distantes.
Lembro-me de ter andado para frente, já em prantos, gritando pelos meus progenitores e... nada! Naqueles instantes, ouvia apenas o silêncio dos gritos alheios — uma contradição que só quem já chorou em meio a uma multidão entende. A diversão da festa já havia se esgotado para mim e, claro, para os meus pais, já que, certamente, eles também perderam a cor assim que não me avistaram ao lado deles. Se o carnaval é a festa conhecida por pintar rostos, naquele ano, em específico, ele havia apagado o nosso.
Eis que um homem — com o seu microfone — me abordou. Sua primeira pergunta foi enfática: "o que você está fazendo aqui?". A segunda veio como retórica: "você se perdeu dos seus pais?". Eu só sabia dizer que sim, que os queria por perto e que não sabia onde estava. Entre uma frase e outra, soluços. Entre um soluço e outro, mais soluços e a certeza infantil de que o mundo era grande demais para alguém do meu tamanho.
Quando parecia não haver solução para o meu trágico desaparecimento, o homem — que hoje imagino ser o locutor do evento — interrompeu a exibição das fantasias e bradou pelos alto-falantes do local — assumindo, por um instante, o papel de mestre de cerimônias da minha pequena desgraça particular:
— "Atenção! Uma criança está aqui no centro do palco procurando por seus pais. Está chorando e vestindo uma camiseta do Pokémon! Atenção! Ele está vestindo uma camiseta do Pokémon", repetiu o mensageiro, como quem anunciava não apenas um figurino singular, mas uma pista crucial em meio ao caos carnavalesco.
Ao ouvir a mensagem, meus pais e meu irmão correram para me encontrar. Fim da apreensão — que, olhando para trás, talvez tenha durado, no máximo, uns poucos minutos, mas que na memória se estende como um desfile inteiro. O reencontro teve algo de apoteótico: braços que me ergueram, lágrimas que se misturaram e promessas silenciosas de nunca mais soltar a mão de ninguém.
Ao fim de tudo, quem deu um baile em todos foi eu. E de fantasia de um desenho japonês! Em meio a penas, plumas e alegorias improvisadas, lá estava eu, pequeno protagonista involuntário. Sem sequer imaginar que o carnaval não era só sobre fantasias — era sobre encontros, desencontros, reencontros e, especialmente, de uma realidade despida e colocada de lado.
Pois havia algo de muito curioso naquela cena: um personagem japonês, saído de um universo de batalhas imaginárias, perdido no meio de uma festa tipicamente brasileira. Era como se dois mundos aparentemente opostos resolvessem apertar as mãos em plena praça pública.
Araras vermelhas, pavões imaginários, onças, zebras de cetim... e Pikachus!
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| Dizem que mentira tem perna curta, né? Eis a foto da verdade em forma de menino! |
16 fev./26
