Batidas por minuto

"Se eu contar, ninguém acredita... mas e se eu escrever?"

Foi exatamente essa a pergunta que me fiz após terminar um treino de corrida. E, não, a performance daquele dia nada tem a ver com a intenção deste texto. Longe disso; performance em uma corrida, no meu caso — pelo menos por enquanto — é o imperfeito, mas feito. E só.

O que aconteceu mesmo foi uma sucessão de sincronias que me deixou embasbacado! Uma sequência de pequenos acontecimentos que deixou a atividade física em segundo plano e imprimiu àquela manhã uma aura especial.

Li, nos dias anteriores, que algumas frequências sonoras e, especialmente, alguns ritmos geram certa influência em quem está correndo. Ao focar nossas atenções na velocidade da música, por exemplo, inconscientemente aceleramos ou diminuímos a passada.

Fui além e descobri que há algumas sinfonias que auxiliam ainda mais nesse tipo de treino, justamente por sugerirem pausas e momentos de aceleração em medidas adequadas para um corredor inexperiente como eu. Música clássica faz bem a qualquer hora do dia mesmo; não custa tentar, pensei.

Verifiquei, em uma planilha de treinos que passei a seguir, a distância e o tempo que devia permanecer em movimento. E dei play na Symphony nº 9, do compositor tcheco Dvořák.

A sugestão veio de um perfil de uma rede social que indicou essa faixa para quem desejava experimentar essa junção aparentemente estranha de música erudita e corrida de rua. Fiquei feliz por conhecer um dos movimentos da sinfonia, já que, em anos anteriores, eu havia tocado alguns trechos com os colegas flautistas da minha cidade.

Eis que, ao final do meu treino, bufando e retomando o fôlego — quando o relógio alertava sobre o êxito da duração e da distância atingidas —, ouvi pelos fones de ouvido uma plateia gigantesca aplaudindo o que parecia ser um grande feito! Por alguns segundos, ouvi em uníssono o ruído gerado pelas palmas, os gritos efusivos e a efêmera celebração da eternidade.

Estava na cara que não era para mim tamanho ímpeto sonoro! Mas e se fosse? Tal sincronia (o fim de uma sinfonia e o fim de um treino de corrida) provocou em mim uma indagação sem igual: como pode haver sincronia em coisas tão díspares? Como pode haver união de sentimentos em expressões tão contrastantes?

Olhei no relógio e, em um número redondo de minutos, corri outro número redondo de quilômetros. O quê? Mais uma sincronia? Não pode ser real, contestei.

Sua divisão melódica — soube depois — era ainda mais espetacular! O início, utilizando nomenclaturas próprias do eruditês, era um Allegro molto (muito alegre), seguido de um Allegro enérgico.

Depois, no centro emocional da música (o largo), havia referências a uma melancolia que, segundo a história, tinha a ver com a saudade que o compositor sentia de sua terra natal.

Os dois movimentos finais, “muito animado” no início e “alegre com fogo” na sequência, encerravam a música com resumos temáticos da obra.

Exatamente como havia sido a corrida:

1º movimento: muito alegre, tudo fluindo bem;
2º movimento: vontade de voltar pra casa;
3º movimento: o fim estava próximo, era hora de extravasar.

Forcei a barra, né?

(...)

Ao sair do parque onde fiz o meu treino, vi vários carros pretos parados em frente ao aeroporto. Homens bem vestidos, de braços cruzados, pareciam aguardar a chegada de alguém muito importante.

Se eu soube quem era? Nah, aí seria demais. Aquela manhã já havia sido muito solene. O mundo seguiu perfeitamente indiferente — como costuma fazer; afinal, sincronias não pedem testemunhas.

Se eu contasse, ninguém acreditaria. Mas eu escrevi.

08 fev./26