A formiga não come aspartame
Tenho pelo óbvio um certo distanciamento. Por ele, também nutro uma certa proximidade. Sei que estamos no mesmo barco e, ao mesmo tempo, em cais diferentes; um completo caos.
Aquilo que me parece estático e imutável, por hora me lembra algo volúvel e permeável. O que se sobressalta após uma observação, nem sempre se mostra um horizonte visível; a vida é confusão atrás de confusão.
Olhar o mar não é só olhar o mar: é ser olhado por ele e vê-lo também na areia que acaricia os nossos pés. Mar é o céu que nos cobre, é a lágrima que pelo nosso rosto escorre; é a água que molha as nossas pernas quando caminhamos pelo asfalto quente das cidades.
Ver o óbvio é a coisa mais óbvia que eu poderia sugerir. Ver através do óbvio então, nem se fala.
Notar as intempéries do tempo e senti-las tais como elas são nem sempre basta para quem se aprofunda em mares tempestuosos e violentos. O frio nem sempre afeta aquele se despe; por vezes, ele aquece. O calor nem sempre esquenta o gesto que afaga; quase sempre, ele esfria a intenção lançada.
Eu sei que a sombra não anda sozinha por aí à procura de um ser; e sei que o eco transmitido em uma caverna só é audível se partir de uma garganta ansiosa ou aflitiva. Mas se um livro ler o leitor, ah, é o ovo nascendo antes da galinha. Ou até dos dinossauros, para ficarmos na ideia da origem e da evolução das coisas.
A existência precede a essência.
O óbvio não é o fim, nem o começo. Não é a resposta pronta, nem a pergunta sem motivo. O óbvio não é a superfície que nossos pés tocam (nem o céu que nossas cabeças habitam). O óbvio é matéria de fissura, de terrenos arenosos e firmes.
Confiar nele e segui-lo como quem segue uma gaivota voando pelas montanhas não me parece uma visão certeira e proporcionalmente bela. Desconfiar dele e desviar o olhar como quem procura o afastamento do afeto também não. O óbvio é uma seta, não o caminho.
O óbvio não é óbvio sempre que alguém resolve olhá-lo pelo última vez.
(...)
abajur não vai fazer o sol raiar
