Carta 025 - Essa palavra de luxo

Querido Joaquim,

Hoje é um dia muito, mas muito especial para todos nós: é o aniversário da sua mãe. O primeiro que você passa, oficialmente, ao lado dela — embora o primeiro de todos tenha acontecido dentro da barriga, onde o tempo ainda não tinha nome. Sua mãe, Joaquim, é uma preciosidade rara, dessas que não se exibem: apenas existem. E são dias como o de hoje que nos dão coragem para tocar aquilo que há de mais sincero em nós e dizer, ainda que com cuidado, o que normalmente mora em silêncio.

Para me ajudar na escrita desta singela cartinha, resolvi chamar duas poetas de quem seu tio tanto gosta e que, em poucas palavras, conseguem nomear o indizível do que é ser mãe — e do que, para mim, é a sua mãe. A primeira delas, Alice Ruiz — esposa de outro poeta que seu tio tanto admira —, lembra que “depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco”.

Lindo, né? Qualquer texto que eu tentasse escrever seria pequeno diante do que esses versos ensinam. Sua mãe é assim, Joaquim: matéria de poesia. Daquelas que dizem tudo sem levantar a voz, que ensinam sem anunciar a lição, que acolhem com uma força tão delicada que altera o modo como a gente percebe o mundo.

Ela é feita de delicadezas invisíveis, de gestos suaves, de silêncios que não se calam — e que ecoam mais fundo do que qualquer grito. Hoje, enquanto o tempo soma mais um ano ao calendário dela, algo se desloca para sempre: ela tem você. A partir de agora, cada aniversário carregará nela outro peso, outro brilho, outra urgência de viver — como se o tempo passasse a pulsar também fora do próprio corpo. E pulsa.

Que você cresça sabendo que mora no abraço mais seguro que existe. Que aprenda, dia após dia, que o mundo pode ser confuso (e ele é), cheio de ruídos e desvios, mas que sempre haverá um lugar onde tudo encontra sentido: o colo da sua mãe. A sua morada.

E que, assim como nesta cartinha do seu tio, quando as palavras faltarem — porque às vezes elas faltam mesmo —, o amor dela continue dizendo tudo.

Mesmo em silêncio.

Foto: Renascer Fotografias
Modificada por IA.

(...)

minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
não é.
a coisa mais fina do mundo é o sentimento.
aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“coitado, até essa hora no serviço pesado”.
arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.

ela não me falou em amor.
essa palavra de luxo.

["Ensinamento". Adélia Prado]

Com carinho,
Tio/Padrinho Matheus.
20 dez. 25